terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Garoto do Pátio da Escola

Meus vicios me ocultam atrás das horas perdidas e dos rémedios para o sono quase eterno. Meus cantos me acolhem como amigos compreensivos que me esperam sempre. Minhas mãos escondem o meu rosto sujo de lágrimas cristalinas que ninguém quer ver. Meu pés fazem o caminho por sí própios, não adianta tentar transparecer. A vida nessa escola é pacata, a vida nessa escola é vazia.


Aquelas paredes me dizem coisas sobre um passado feliz e sobre um passado triste. Elas me mostram as lágrimas que você enxugou ao me encontrar quieta e muda, tentando de toda forma entrar para dentro de mim, e sumir.
Aquelas paredes me dizem coisas sobre uma perda insubstituivel, sobre olhares incontidos, sobre o medo e sobre o seu silêncio. E aquelas paredes me dizem coisas sobre um garoto me puxando e me pedindo para falar, e sobre um lição de moral, sobre arrependimento e sobre mudança. Aquelas mesmas paredes me dizem coisas sobre perdão!
Aquelas outras paredes logo ali, me dizem coisas sobre um abraço impulsivo e proporcionado pela força da saudade. Aquelas paredes me dizem coisas sobre como segurar uma mão e sobre como me sentir bem. Aquelas paredes me dizem coisas sobre um "cantor" que cantava e olhava para mim, e eu quase morria envergonhada. Aquelas paredes me dizem coisas sobre fotos e sobre pessoas pulando e gritando algo como um grito de guerra.
Aquelas paredes me dizem coisas sobre um garoto concentrado nos seus estudos, falando sozinho e perguntando tantas coisas a sí própio. Aquelas paredes me dizem coisas sobre uma carta que tinha de ser passada a limpo, e sobre um frio na barriga. Aquelas paredes me dizem coisas sobre esperas depois da prova.
Aquelas paredes me dizem coisas sobre uma confusão, sobre um boato, e sobre uma fuga para o banheiro devido a uma aula ruim. Aquelas paredes me dizem coisas sobre um garoto que ia sempre me buscar para conversar. Aquelas paredes me dizem coisas sobre uma tarde atarefada, subindo e descendo escadas, correndo atrás de taxinhas e figuras impressas em papeis sulfite.
Aquelas paredes me dizem coisas sobre o último dia de aula e também sobre a minha repentina invasão ao banheiro masculino. Me dizem também coisas sobre pessoas molhadas, umas felizes outras tristes, e dizem coisas sobre um fixa caindo. Me dizem coisas sobre um bolo de chocolate em dívida e videos gravados pelo celular. Me dizem coisas sobre um abraço estranho depois do último dia de aula.
E aquelas paredes bem ali no canto, me dizem coisas sobre a contagem regressiva, sobre lágrimas e sobre um garoto me abraçando e dizendo que iria ficar tudo bem. Que iria ficar tudo bem!


Aquele garoto, que estava sempre no pátio da escola, sempre perto de mim, sempre tão perto de mim. Aquele garoto continua comigo, mas tão longe.
Aquele pátio anda tão vazio, tão frio, tão remoto, esvaecido, inerte... Morto!


Quem diria que quem realmente fazia o pátio ser o que foi, era você. Sei que me acha louca, e que leio bobagens e depois fico tendo atitudes preciptadas. Sei também que acha que tudo o que eu escrevo é apenas uma forma de contar para todos como me sinto, ou apenas para mim mesma, ou para você. Sei que sempre vou ter algum defeito para que você aponte, e sempre um motivo para que eu o concerte. Sei que vou sempre ser essa garota viciada em minha falta de auto-estima e sempre sentada no chão, porque quer que seja.
Sei que eu não vou conseguir dizer aquilo que tanto quero a você tão cedo, e você não fará tanta questão. Sei que minhas manias para você são graça, e suas manias para mim são pedras preciosas. Sei que nada do que eu digo faz sentido, se é que há sentido nas coisas que digo.
Sei que eu não sou prioridade em sua vida, talvez nem queira ser; ler algumas palavras de sua autoria já me fazem feliz por uma semana inteira.
Sei que minha felicidade é estranha, e minha tristeza é chata. Sei que que as minhas palavras são repetidas e minhas metáforas são idiotas. Meus textos nuncam passam disso, e meu diário é perda de tempo.
Sei de tanta coisa, mas não consigo deixar de ser eu mesma com você. Apenas eu mesma.


Você vai dormir e eu fico acordada pensando em qual terá sido a última coisa em que pensou, e se já terá dormido. E eu durmo agradecendo "Obrigada, obrigada!", meu mantra de ninar, e ainda sim tão sincero.


Este, como todos os outros, será um monte de palavras que você não entenderá muita coisa, mas eu entendo. E para mim elas são necessárias; como seus abraços e seus beijos de despedida em meu rosto, como seu cheiro e o seu ombro, como suas mãos e os seus olhos. Como você e como eu mesma. Coisas que se fizeram necessárias com o passar do tempo.
Eu sei que não são todos os sentimentos como este que duram para toda um vida. E é porisso que eu gosto tanto de senti-lo todos os dias, como um perfume empregnado em sua roupa favorita, que você não sabe quando vai senti-lo outra vez. Não apenas o perfume, mas a mistura perfeita do perfume e daquele cheiro único. Tenho sim medo que acabe, mas não tenho medo de cair. Pois das quedas vêm a necessidade de se reerguer, assim como é com espinhos no dedos que se rouba uma rosa.


Um dia, meu garoto, eu lhe digo tudo de uma vez; aquela coisa que os poetas gostam de escrever.
Um dia, meu garoto, você vai acordar e vai lembrar das minhas palavras e vai sorrir involuntariamente, e então rir de si mesmo por se surpreender.
Um dia, meu garoto, você vai ver, que os meus olhos dizem mais coisas do que consegue enxergar.
Um dia, meu garoto, estaremos nós; eu e você, juntos naquele pátio denovo. Apenas olhando e escutando o que aquelas paredes tem para nos dizer.
Um dia, meu garoto, você vai me abraçar e vai ver o como eu meu sinto bem ali, em você.
Um dia, meu garoto, eu vou tentar mais uma vez; vou olhar no fundo dos seus olhos abrir os meus lábios, balbuciar qualquer coisa e rir. E você vai entender tudo o que eu queria lhe dizer.


Para muitos, ou ainda para todos, aquelas paredes nunca vão passar de tijolos empilhados, e o pátio apenas um lugar para esticar as pernas depois das aulas chatas.
Mas para mim aquelas paredes são páginas de um livro, escrito por mim e por você. Páginas repletas e cheias de lembranças. E aquele pátio é o ponto de partida.
Os tijolos podem vir ao chão, e o pátio partir-se ao meio; as lembranças permanecerão.

E por mais que o tempo tente apagar tudo, o cara que estava sempre naquele pátio, e que sempre me salvou da solidão dos cantos mais remotos da escola; aquele garoto do pátio, será sempre você.
Uma vez escrito, para sempre escrito.


Verba volanti; Script Manent, do latim, as palavras voam; a escrita permanece.


E tudo isto está escrito em mim!


Kuromi Markgraf

3 comentários:

Karla Hack dos Santos disse...

"Aquelas paredes me dizem coisas sobre um passado feliz e sobre um passado triste"

Lindas palavras..
O teu texto tem uma agonia muito sincera e bonita.. parabéns!

;D

bjus

Unknown disse...

Tia Kuromi ...
ja li todos os textos do seu blog, e os leio sempre e sempre novamente, eles sao sinceros e verdadeiros .. a maioria deles sei do que se trata, mas nao me gabo por isso, apenas me sinto honrrada de ver o quanto parece que voce confia em mim.

continue sempre sendo essa pessoa maravilhosa que voce é, lhe agradeço por tudo.

Kissu

Mata nee

Kaká disse...

Amei o texto!

Parabéns!